sábado, 22 de novembro de 2008

Fazenda Ipanema - Iperó - SP

Em abril de 2006 fui acampar com o escoteiros do Grupo Escoteiro Nove de Julho - 25 SP (sou chefe assistente da tropa Negra desde 2000, quando meus filhos ingressaram no movimento) na Fazenda Ipanema em Iperó, próximo a Sorocaba em São Paulo. Não foi a primeira vez que acampamos lá, porém desta vez descobri um relógio de sol muito bonito feito de ferro fundido.

Trata-se de um relógio horizontal plano sem correção para a equação do tempo. Foi construído em ferro em 1863 para as coordenadas geográficas: 23°25’34”S e 047°35’W, pelo Engenheiro Guilherme Schuch Capanema para o levantamento topográfico da área da Real Fábrica de Ferro Ipanema e passou a ser um marco geográfico para os levantamentos geográficos ocorridos desde então.

O dispositivo marca a passagem do Trópico de Capricórnio e localiza-se no ponto onde foi determinado o meridiano astronômico de Ipanema.

No mostrador estão indicadas as horas cheias e as frações a cada 15 minutos. Cada uma das 4 faces do pedestal de alvenaria aponta para um ponto cardeal. Na face Leste estão inscritas as coordenadas geográficas do local.

Segundo informações obtidas no local, e não verificadas, uma pequena alteração ocorrida na posição do mesmo faz com que exista um erro na indicação do horário, porém este não é maior do que 10 minutos.

Tirei as fotos a seguir em 22/04/2006. Elas dão uma idéia do relógio de sol e de seu pedestal.


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Na Fazenda Ipanema foi instalada a primeira siderúrgica do Brasil, sendo que em 1818 ocorreu a primeira corrida de ferro gusa que foi usada para a construção de três cruzes. Abaixo segue um pequeno resumo histórico muito bem elaborado por Roberto Inaba, Arquiteto especializado em estruturas metálicas que atua no departamento de Marketing da Cosipa e Chefe de Escoteiros do GE Nove de Julho 25 - SP.




HISTÓRIA DA SIDERURGIA EM SÃO PAULO
por Roberto Inaba

1532 - Martim Afonso de Souza chega à São Vicente e instala forjas catalãs primitivas.
1554 - Padre Anchieta relata em carta enviada aos seus superiores, a existência de ferro e prata em terras paulistas.
1587 - Os Afonso Sardinha (pai e filho) instalam pequena forja de ferro às margens do rio Jurubatuba, afluente do rio Pinheiros, na Freguesia de Santo Amaro, próximo à vila de São Paulo.
1589 - Os Afonso Sardinha (pai e filho) descobrem minério de ferro no sopé do Morro Araçoiaba, próximo da atual cidade de Sorocaba.
1591 - Afonso Sardinha instala nesse local dois fornos rústicos e uma forja para produção de ferro. Considerando que São Paulo estava a mais de 120 km de distância e tinha menos de 2.000 habitantes, essa empreitada representou grande proeza, e serviu para para que mais tarde fosse conferido a Afonso Sardinha o título de “Fundador da Siderurgia Brasileira”.
1597 - Mais duas pequenas forjarias foram construídas na região de Ipanema.
1628 - Encerram-se as atividades em Ipanema.
1629 - Morre Afonso Sardinha.
1703 - Assinado o “Tratado de Metuthen” entre Inglaterra e Portugal, que obrigava este último a destruir todas as manufaturas na Europa e também em suas colônias, o que incluia os empreendimentos destinados à fabricação do ferro.
1765/1775 - Diversos empreendimentos foram instalados em São Paulo, muitos deles utilizando processos metalúrgicos vindos de Gâmbia, África, juntamente com escravos africanos.
1785 - Dona Maria I, A Louca, rainha de Portugal e mãe de D. João VI, proíbe a indústria de ferro no Brasil.
1795 - Revogada a portaria que proíbe a indústria de ferro no Brasil.
1800 - João Manço Pereira junto com o Coronel Cândido Xavier de Almeida e outros técnicos, viajam para a região de Sorocaba com a missão de escolher um local para implantação da futura “Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema”.
1801 - De posse de um alvará que mandava estabelecer uma fábrica em Ipanema, Manço Pereira e um irmão de José Bonifácio de Andrada e Silva, constroem, sem sucesso, o que pode ser considerado o primeiro alto-forno do Brasil.
1808 - Chegada da família real. D.João VI permite o livre estabelecimento de fábricas e manufaturas no Brasil.
1809 - Chegada do oficial alemão e técnico matalurgista Coronel Frederico Luiz Guilherme de Varnhagen, que imediatamente recebe a incumbência de examinar as minas de Sorocaba, a qualidade do minério existente, os recursos hídricos disponíveis, as dificuldades a serem enfrentadas e ainda elaborar um orçamento para implantação da “Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema”.
1810 - Após análise do relatório efetuado por Varnhagen, é autorizada a instalação da “Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema”, subordinada ao Ministério da Guerra.
Ao contrário do que se esperava, por indicação do consul do Brasil na Suécia, é contratada para a implantação da fábrica, uma missão sueca, liderada por Carl Gustav Hedberg e que contava também com o mestre Lars Hultgren (ficou conhecido como mestre Lourenço).
A fábrica surgiu como uma empresa de economia mista, sendo que o governo participava com metade do capital e era ele quem de fato, comandava os destinos do empreendimento.
Varnhagen é designado apenas para participar da Junta Administrativa da Fábrica de Ipanema.
1811 - Chega ao Brasil o mineralogista alemão Wilhelm Von Eschwege, amigo de Varnhagen, com a missão de examinar os minérios da província de Minas Gerais e as condições para se implantar alí uma fábrica de ferro.
Vanrhagen resolve se afastar da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema por divergências técnicas com o grupo sueco e principalmente com Hedberg.
Hedberg constrói 4 forninhos baixos suecos (2 metros de altura) do tipo Blauofen.
Produção: 88kg/dia.
1814 - Os questionamentos de ordem técnica e moral aumentam, já que desde 1811 Hedberg tentava sem sucesso produzir ferro. Hedberg é demitido conforme determinado pela Carta Régia datada de 27 de setembro e assinada pelo Príncipe Regente D. Pedro I.
1815 - Em 21 de janeiro,Varnhegen assume o comando da fábrica e demite os operários suecos com exceção de Hultgren, e contrata trabalhadores alemães. Ipanema começa a produzir ferro forjado e laminado.
Em 21 de outubro, são iniciadas as obras para a construção do primeiro alto-forno em Ipanema.
1818 - Com um dos alto-fornos já concluídos, a 1º de novembro, acontece a 1ª corrida de gusa em Ipanema, tendo sido confeccionadas 3 cruzes.
Produção: 920 kg/dia.
1820 - José Bonifácio de Andrada e Silva lamenta em um relatório a situação de atraso da fábrica de Ipanema, devido à incapacidade da missão sueca que trouxe trabalhadores que nada sabiam do manuseio do ferro.
1821 - D. João VI retorna à Europa e com ele segue Varnhagen, que deixa assim a administração da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema para assumir em Portugal o cargo de Administrador das Matas Nacionais do Reino.
1822 - É proclamada a Independência do Brasil.
Eschwege retorna à Europa.
1829 - Morre Lars Hultgren, o Mestre Lourenço, considerado por muitos estudiosos como o maior artíficie metalúrgico do Brasil de 1810 a 1829.
1835 - O major João Bloem é nomeado diretor da Real Fábrica de Ipanema.
1846 - No período de 19 a 21 de março, o jovem Imperador D. Pedro II, então com 21 anos, visita Ipanema.
1854 - É nomeado diretor de Ipanema o coronel João Florêncio Parecis.
1860 - O governo manda fechar a Real Fábrica de Ipanema.
1863 - No mês de agosto, o ministro da guerra José Mariano de Matos, encarregou o engenheiro Guilherme Schuch de Capanema, de estudar a restauração da Fábrica de Ipanema. Capanema fez um minucioso levantamento da situação e recomendou a reativação da fábrica, indicando o capitão Joaquim de Souza Mursa para levar a cabo tal empreitada.
1865 - O governo retoma a operação da Fábrica de Ipanema em razão da guerra do Paraguai. Assume como novo diretor o capitão Joaquim de Souza Mursa, conforme indicação de Capanema.
São realizadas modificações para melhorar o desempenho dos altos-fornos e as corridas passam a acontecer de 8 em 8 horas.
Produção: 3.000 kg/dia.
1875 - O Imperador D. Pedro II e a Imperatriz visitam a Real Fábrica de Ipanema e recebem uma coroa imperial fundida em ferro.
1878 - Iniciada a construção do terceiro alto-forno de Ipanema, com 12 metros de altura.
1881 - Inaugurada uma via férrea com 4.200 m de comprimento e 0,60 m de bitola, para melhorar e baratear o transporte de minérios para os fornos.
1882 - O coronel Mursa inaugura monumento em homenagem ao falecimento de Francisco Adolfo Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, filho do pioneiro de Ipanema, Coronel Frederico Luiz Guilherme de Varnhagen.
1883 - Realizada nova modificação nos fornos.
1885 - Terminada a construção do terceiro alto-forno, que infelizmente não chegou a funcionar pois dependia das instalação de uma máquina insufladora de ar, o que nunca aconteceu.
A fábrica passa a ser subordinada ao Ministério da Agricultura.
1888 - Pela primeira vez na história, a fábrica não teve prejuízo (acusou um pequeno lucro de um conto de réis).
É promulgada a Lei Áurea, abolindo definitivamente a escravidão no Brasil.
1889 - É proclamada a República no Brasil. Mursa se afasta da direção de Ipanema para participar do triunvirato que governou provisoriamente São Paulo.
1892 - A fábrica passa a pertencer ao Ministério da Guerra.
Produção diminui para 2.000 kg/dia.
1895 - É fechada definitivamente a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema.


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Links:



http://fazendaipanema.ipero.sp.gov.br/historia.php

5 comentários:

Anônimo disse...

Santa Maria, 4 de janeiro de 2009

Muito interessante o documentário sobre os relógios de Sol.

Prof. Carlito Vieira de Moraes
carlito2002@gmx.net

Ricardo disse...

Caro Prof. Carlito,

Obrigado pelo comentário.

Estamos tentando divulgar mais este tipo de dispositivo muito pouco conhecido no Brasil.

Pretendemos construir uma comunidade dos entusiastas brasileiros da gnomônica e dos relógios de sol ao redor deste blog.

Todos os interessados em contribuir são muito bem-vindos. Basta solicitar acesso.

Atenciosamente,
Ricardo

michele disse...

fui na fazenda umas tres vezes e é sempre um passeio muito gostoso!!!

Sivaldo disse...

fui nesse final de semana á fazenda Ipanema e fiquei admirado com o relógio do sol, gostaria muito de participar dessa comunidade,

Anônimo disse...

QUE SAUDADES!!!!!
Estudei na Fazenda Ipanema até meados de 1989, logo depois ela foi invadida pelo MST. Lugar maravilhoso, que me traz lembranças que jamais vou esquecer, além de todo um acervo histórico grandioso.

Lívia Ricarti